terça-feira, 21 de julho de 2009

Gomuck, a nascente do Ganges

Na primeira vez, fui sozinha e fiquei três meses, foi ótimo. Na segunda a viagem foi em grupo. A princípio estranhei, achei que seria complicado muita gente junta na Índia, mas iria de qualquer maneira porque uma das pessoas do grupo era Gloria, a minha mestra. A viagem foi pensada como uma grande peregrinação, com dois pontos principais: a nascente do rio Ganges no norte e o templo de Balaji em Tirupathi, no sul.

Fomos primeiro para o sul, que vale um post a parte. Depois para o norte. Parada estratégica no ashram do Swami Dayananda em Rishikesh e em um micromicrominionibus começamos a subir os Himalayas! O onibus tinha que ser o menor possível por causa do tamanho das estradas. É preciso um veículo pequeno, uma ótima buzina e motorista e fé, muita fé. A pirambeira é tão pirambeira que da janela não dá para ver nem um dedo de terra, só vemos o pneu e o precipício. Em toda curva está escrito "buzine por favor". Para ter uma idéia, um trecho de 300km mais ou menos leva umas 12 horas de viagem.

Depois de um dia inteiro chacoalhando (eu e minhas companheiras de viagem mais chegadas ficavamos lá atrás porque algumas pessoas enjoavam muito e tinham que ir na frente onde o impacto é menor), enfim, chegamos a uma cidadezinha chamada Harsil. O lugar é lindo, ficamos em um acampamento muito confortável, os quartos eram tendas, mas fixas, com banheiros e tal. Tinha macieiras pelos caminhos até o refeitório e uma comida maravilhosa (OK, nessa parte eu sou suspeita porque adoro todas as comidas, até a do ashram que muitos detestam). Chegamos, banho, janta e dia seguinte caminhada!!! Fomos de onibus até Gangotri, a última cidade antes de Gomuck. Uns burricos levaram nossa bagagem (só o necessário para duas noites de muito frio) e nós começamos.

Lá a altitude beira os 4 mil metros. É dar dez passos numa subidinha e parece que foi um tiro de 2km. Um sol de rachar o coco, um friozinho da sombra. Devagar e sempre, fazendo paradinhas estratégicas, uma delas para almoçar um miojo sabor curry - o melhor miojo da minha vida! Durante o caminho fui filmando um pouco e cantando mentalmente para Ganga. Era o que me dava forças para caminhar, refletir, continuar em meu caminho.
Ao cair a tarde começou a ficar bem frio. Perguntávamos para o guia se faltava muito e ele sempre respondia que era duas curvas depois - que nunca chegavam..rsrs
Chegamos já a noitinha, depois de 9 horas eu acho de caminhada. Bhoojbasa era a base, um acampamento com barraquinhas mais modestas, um banheiro que era uma casinha com um buraco no chão e um refeitório que era uma tenda maior. Cheguei com uma enxaqueca horrível e me joguei dentro da barraca, rindo, não acreditava que tinha chegado!!! Logo fomos jantar, vou parar de comentar a comida se não vão achar que eu vou para a Índia só para comer!

Na manhã seguinte seria a caminhada final até a nascente, mais uns 4km para ir e 4km para voltar. O céu era o mais estrelado que eu já vi em toda a minha vida!!! Bhoojbasa é lindo!!!
De manhã, uma bacia pequena de agua morna/fria (a do rio era gelo puro) para higiene básica. Posso dizer que agradeço por quem inventou os lenços umidecidos, rs.
E vamo que vamo. Algumas pessoas passaram mal durante a noite, altitude, esforço e principalmente nervosismo por saber que se tivesse um piripaque ali ia ter que descer no lombo do burro até Gangotri, que também não devia ter muita assistência. No começo foi um pouco tenso, mas todos foram devagar, cada um no seu ritmo. O sol parecia pior, ou o caminho que não tinha quase sombra nenhuma. Mantra para Ganga mais forte do que nunca!
Enfim, chego a nascente! Que força, que som! No buraco mesmo é perigoso ir, muitas pedras rolam, tivemos que ficar um pouco a frente, só admirando o paredão de gelo. A água mais gelada que eu já senti. Só o João Mazza e a Lucia Paiva conseguiram entrar na água, meus heróis!!! Talvez agora com cabelo curtinho eu consiga também...


Voltamos, dormimos mais uma noite em Bhoojbasa e no dia seguinte, caminhada de volta a Gangotri. Algumas pessoas voltaram no burrico. Eu, João e Lucia viemos num pique só para pegar o templo de Ganga aberto. Para descer é outra história...o que levamos 9h na ida fizemos em 4 na volta. Conseguimos pegar o templo aberto, aguenta coração!!! Sensação de missão cumprida. Mas a viagem ainda não acabava ali...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Bandhara em Rishkesh



Bandhara é uma refeição oferecida para os sadhus que estão pela região. Sadhu é um renunciante, alguém que vive com o mínimo, e depende da caridade alheia para comer. Durante o curso no ashram do Swami Dayanada, ele ofereceu um grande bandhara. Vieram muuuuuitos sadhus, de tudo quanto era jeito. Nem todos os sadhus são swamis (senhor de si), não seguem linhagem alguma de estudo, alguns praticam somente tapas (disciplinas), fazem um voto de manter um fogo sempre aceso por exemplo, ou praticam certos sacrifícios. Nem todo sadhu é swami, mas todo swami é sadhu. Para renunciar, basta jogar seu cordão de brahmane no rio, vestir uma veste laranja rosada e sair por aí errante. A renúncia para se tornar um swami requer um mestre, uma linhagem de ensinamento, um planejamento, um ritual. Logo quando cheguei em Rishkesh, teve um ritual, por volta de seis estudantes renunciaram. É algo emocionante de se presenciar. Os alunos e vários swamis vão ao rio para que os que vão renunciar tomem o último banho como fulano e siclano (depois da renúncia eles ganham outros nomes do Mestre). Depois passam a noite em volta de uma fogueira fazendo rituais. Entre eles tinha uma mulher (o que é bem raro) e estrangeira (mais difícil ainda). Swamiji Dayanada é o máximo!
Bom, voltando ao bandhara. Depois de ver o Swami Dayananda comprimentar um por um e tirar muitas fotos, já quase no final, muitos já estavam indo embora, um velhinho, mas muito velhinho começa a falar comigo, parecia agoniado. Eu não entendia nada do que ele falava então pedi ajuda para uns indianos que estavam ali perto. Alguma coisa já tinha me tocado, desde que vi aquele senhor já tinha ficado estranha. Os indianos "tradutores" me disseram que o velhinho tinha problema no coração e queria saber onde podia pegar um remédio porque estava sentindo dor. E o velhinho ali, falando sem ninguém lhe dar muita atenção, com uma cartela de remédio vazia, gesticulando com dificuldade.
Aaaahh, pra quê!
Só consegui sentar numa escada, onde estava mesmo e desabei o chororô. Não tinha muita explicação racional não. Só chorava e chorava. E os indianos sem entender nada...eles não são muito de demonstrações de emoção assim, públicas. Me diziam que ele ia ficar bem, que há remédio para ele no posto de saúde e tal. E eu chorando, chorando...
Depois ficou tudo bem, o velhinho pegou seu remédio e se acalmou e eu também. rsrs

Despedida, final do curso em Rishkesh


Sala cheia, todos os alunos em pé em fila com seus envelopes de guru dakshina. Swamiji Dayananda sentado, recebia o namaskara de cada um e dava um livrinho com uma fruta de prasada. Eu já com um certo nó na garganta...e de repente começam a cantar o Gurustotram, um dos cânticos mais bonitos na minha opinião e que sempre me emociono até hoje quando canto. Comecei a chorar, primeiro discretamente. Uns alunos indianos se aproximavam perguntando por quê eu estava chorando, diziam "você vai voltar aqui", "ano que vem você está aqui", "não chore", quanto mais falavam, mais eu chorava.
Quando cheguei aos pés do Mestre já era só emoção. Recebi a prasada e sai rapido para fora da sala. Sentei em um banco de frente para o Ganges e desabei. Era um choro de felicidade, de agradecimento, de tristeza, de saudade, de tudo. Eu chorei ali com muita vontade mesmo! rsrs
Passa um tempinho e minha amiga e companheira de quarto no ashram, Carolina, chega também ao banco, com a cara já inchada. As duas ficam sentadas ali, chorando sem parar por algum tempo.
Foi lindo.
Até hoje quando canto Gurustotram me emociono. Na segunda vez em que estive em Rishkesh também me emocionei, ao chegar e ao ir embora principalmente. Aquele lugar significa muito para mim. O que eu aprendi e vivi ali...as aulas, os pujas de manhã cedo e a tarde, os banhos no rio Ganges, as amizades, os sonhos (sonhava quase todos os dias com Swamiji, quando não me respondia durante as aulas, me falava durante a noite)

O velhinho do ônibus para Bangalore

Resolvi sair de Puttaparty poucos dias depois de ter chegado, em mais uma madrugada insone por causa do jet leg. Por volta das 3 da manhã me enfiei em um ônibus catacorno onde ninguém falava inglês. Eu sentei na janela, com meus mochilões no colo (não havia espaço para bagagem, como disse, era um catacorno). 

Nos primeiros dias na Índia, sozinha, ponderando tudo que tinham me falado sobre viajar por aquelas bandas, mal tirava fotografias, sei lá, receio de ser agressivo demais. Enfim, estou eu no ônibus, sentada perto da janela, uma senhora sentou ao meu lado. Eram pessoas bem pobres, a maioria com cestos vazios, provavelmente estavam voltando para seus vilarejos para abastecerem e voltarem para vender em Puttaparty. De repente ouço uma voz cantando uma melodia linda ao som de um chacoalhar de moedas ao fundo. Me viro para ver de onde vinha aquela música, aquela voz tão intensa e vejo um senhor, bem velhinho, cego, sacudindo um pote com umas moedas, pedindo dinheiro. 

Aquela cena toda, miséria pedindo esmola para pobreza, aquele senhor, aquela voz, a madrugada. Veio um choro imediato, como ainda viria muitas vezes pela viagem, ainda contido (mais para o final da viagem, já em Rishkesh, chorei várias vezes feito criança, sem vergonha, sem pudor - para estranhamento geral dos indianos). Ainda tímida tirei a câmera fotográfica da mochila para tentar gravar aquele som. Peguei muito pouco, mas esse momento não sai mais do meu coração. O velhinho cego do ônibus para Bangalore. 

Desabafo

Fui duas vezes à Índia. A primeira em 2005, sozinha, por três meses. A segunda em 2007, com um grupo e principalmente com a minha Mestra, Gloria, peregrinação em um mês de viagem. Importante e fundamental na minha vida, essas viagens até hoje me transformam. 

Tanta coisa que nem sei. Aos poucos vou colocando tudo aqui, vou tentar não escrever esses "testamentos" enormes...rsrs. Por enquanto estou na metade da primeira viagem, isso porque peguei só alguns episódios...(eita!)

Enfim, saudades da mãe Índia, sempre. 

Esse post foi só para desabafar.

domingo, 19 de abril de 2009

Enfim, Varanasi!!!

Acordei no dia seguinte, tomei café da manhã no terraço do hotel e fui andar pelas ruas, tentar achar o hotel em que eu queria ficar, de frente para o Ganges. As ruas lotadas, para variar. Bicicletas, pessoas, motos, vacas, cavalos...tudo. Cheguei ao portão principal para o Ganges, era uma rua bem larga com muito comércio e gente passando. Cheguei as escadarias, virei para a direita e continuei andando. A paisagem era linda e a trilha OM NAMAH SHIVAYA o tempo todo! Muitos indianos se aproximam perguntando se quero andar de barco ( a pergunta mais chata de Varanasi: "boat?", em Mysore era: "flowers?"). Encontrei o tal do hotel, Vishnu guest house, entrei, acertei um quarto e uma hora para me buscarem no outro hotel (não conseguiria chegar lá pelas ruelas e pelo rio teria que vir carregando minhas malas - impossível!). Voltei para o hotel para deixar tudo preparado, eles chegaram na hora certa.

Já instalada em frente ao Ganges, resolvi me aventurar pelas ruelas. É um labirinto, eu tentava ir decorando o caminho, mas volta e meia tinha que perguntar onde era o hotel na volta. Achei uma lan house e finalmente ia me comunicar depois de quase uma semana sem dar notícias. Precisava muito desabafar o que tinha acontecido de Bangalore até Varanasi. Muitas pessoas na Índia me confundiam com indiana, em Varanasi e em Delhi algumas pessoas me perguntaram se eu era de Israel (brasileiro realmente tem cara de qualquer coisa).

Escrevi um email gigantesco com o título de "odisséia"para família e alguns amigos. Meu pai depois contou que leu o email com meus avós e todos choraram. Juro que não fui melodramática, foi perrengue mesmo. Na mesma hora que mandei o email recebi o de uma amiga que estava na Índia e que eu só deveria encontrar com ela em Rishikesh, na parte final da viagem. Ela dizia que tinha resolvido ir para Varanasi e me deu o nome do hotel. Fiquei muito feliz!!! Tudo o que eu queria era abraçar alguém conhecido depois de tanto perrengue! Saí da lan house direto para o tal hotel, era no final do rio. Cheguei lá e ela não estava, deixei um bilhete com o endereço do meu hotel e saí. Peguei um rickshaw (lá o mais comum são os de bicicleta e de cavalo), e de repente cruzo com ela em outro rickshaw gritando "Mariiiina!". Foi incrível, qual seria a chance disso acontecer? Milhares de pessoas na rua, milhares de ruelas e a gente se cruza assim, de repente! Paramos para abraços e conversas. Ela estava com uma amiga argentina. Fomos almoçar. Ela contou que tinha acabado de ler meu email da odisséia, tinha ficado preocupada. Trocamos figurinhas de Índia, como tinha sido para ela e para mim e tal. Combinamos de conhecer alguns lugares juntas.

E assim foi, vimos o amanhecer de barco no rio Ganges, fomos a Sarnath (berço do Budismo) e a Allahabad (encontro sagrado de três rios, era para ser algo mágico, mas para nós foi perrengue total - lá foi meio estranho e levamos horas de onibus lotaaaaaaado na volta.) Fomos ao templo de Hanuman, onde me bateu uma neura da hora, já eram mais de cinco da tarde, eu precisava ir para o hotel porque no rio não tem luz! Cheguei ao portão principal, cheio e iluminado. Mas andei mais 10 metros e era escuridão total e eu sem lanterna!!! Agarrei uma garrafa de agua que havia comprado e fui rezando pelas escadarias (elas também são laterais e não só em direção ao rio). Sinceramente, não sei como consegui enxergar o meu hotel, e ainda dar a volta pelas ruelas porque o portão para o rio estava fechado, mas cheguei sã e salva ao meu quarto!!! Dizem que a noite no rio os leprosos são soltos - mas nem era o meu maior medo. Essa foto dá uma idéia do que eu enxergava na hora...



Minha amiga foi embora dois dias antes de mim de avião para Delhi. Eu fui de trem mesmo para Rishkesh (acho que umas 20 horas de viagem). Nos dois últimos dias aproveitei mais um pouco, visitei mais uns templos, assisti parte de um ritual de morte no rio e bebi um banglassi. Não acho que vale descrever tudo tim tim por tim tim, se não nem eu aguento ler. O episódio do banglassi foi interessante...rsrsrs, foi na véspera de ir embora e no dia seguinte fiquei meio enjoada no trem ( que maravilha!). Comprei numa loja de lassi e levei para o hotel, fiquei com medo de tomar na rua. A percepção do tempo se alterou de maneira absurda. Fiquei parte do tempo no quarto olhando o calangão mutante na parede, escrevendo, arrumando as coisas. Depois desci, fui na lan house, jantei, fiquei um tempo olhando para o rio, para as pessoas. Percebi um certo ar deprê nos gringos ripongas que perambulam por Varanasi. Talvez efeito mesmo de tanto bang, não sei. Já era hora de ir mesmo, de encontro ao meu destino...

domingo, 5 de abril de 2009

Odisséia ou A hora do perrengue

Saí de Mysore por volta de meia noite, em um carro com motorista (sairia mais em conta do que pegar um trem para Bangalore e ficar em um hotel até a hora do voo para Delhi). Contradizendo quase tudo o que me dissera da Índia, o motorista chegou até mais cedo do que o combinado. Da viagem não posso dizer que foi tranquila, porque para andar de carro em qualquer estrada da Índia é preciso ter fé. É focar na divindade que está no painel (sempre tem alguma) e entregar mesmo. Enfim, correu tudo bem, cheguei no aeroporto e fui de avião para a capital, Delhi. Sabia que o Norte seria mais confuso, é a parte mais caótica da Índia. Uma das dicas que me deram para andar de trem foi de sempre pedir assentos que ficassem no alto, em caso de viagens longas, para poder dormir tranquila. Fiz uma confusão enorme na agência em Mysore para trocar a tal passagem, que me deram de segunda classe. O destino era Varanasi, cidade de Shiva.

Chegando em Delhi, aquela confusão normal de Índia, eu com meus dois mochilões e mais uma mala enooooorme que comprei em Mysore (um mês numa cidade batendo perna de um lado para o outro, já viu né?!). Logo um homem começou a falar comigo que era agente de viagens e que podia fazer um pacote para mim e tal. Não dei muita bola, mas quando fui pegar minha passagem de trem e ver como era o tal trem que pegaria, desanimei. Era uma muvuca onde mal tinha espaço para sentar. O cara ainda insistindo ficou me perguntando: "como é que você vai aí, com as malas na cabeça?".

Eu, muito desconfiada, aceitei ir até a tal da agência. Minha intuição dizia que não ia sair boa coisa, mas fui assim mesmo. Lá me ofereceram um chai, dei só um golinho (paranóia máxima de terem colocado alguma coisa no chai). Eles me empurraram um pacote para conhecer Agra. Eu não queria, não fazia a mínima questão de ver o Taj Mahal, mas eles falaram tanto que eu acabei aceitando. Entrei em um carro, o motorista não falava inglês. Foram umas quatro horas de viagem, até que finalmente cheguei a Agra.

Totalmente diferente da paisagem do sul, a cidade é basicamente mulçulmana. Cheguei no hotel, tomei um banho e fui conhecer o Taj Mahal. Tinha um guia local para me levar lá. O ambiente geral é bem hostil e confuso. Não é permitido chegar perto de carro, fui a cavalo mesmo. Para indianos o ingresso era de 20 rúpias, para estrangeiros 720. Já não fazia questão, prefiri ir atrás do palácio, pegar um barquinho até o outro lado e ter uma vista que ninguém lá dentro teria: o Taj refletido no rio. Tirei umas fotos, conversei com o guia. Em algum momento ele fala de seu "mestre", que era hindu, que ele não ligava para isso. Eu pergunto qual era a sua religião e ele responde: "muslim". Ele então me diz que seu mestre ficava do outro lado do rio e que eu poderia conhece-lo se quisesse. Aceitei. Voltamos no barquinho e caminhamos um pouco para umas casas do lado do Taj Mahal, pela parte de trás do mausoléu. Estava anoitecendo e eu estava um pouco cabreira, mas resolvi ir mesmo assim.

Chegamos na casa. Fui até o altar, o baba (senhor) estava lá, me deu prasada (comida abençoda - no caso eram umas balinhas), me falou um pouco sobre a divindade, que eu olhasse nos olhos delas e pedisse o que quisesse que iria realizar. Depois disso o senhor levantou e foi embora e eu fiquei um pouco mais sentada ali. O guia começa a falar de novo e de repente põe as mãos nos meus ombros, como se fosse fazer uma massagem. Fico com muito medo, percebo que suas mãos tremem muito. Pergunto o que ele está fazendo e ele diz que é para me libertar. Levanto sem pensar nem olhar para trás e saio correndo. Tudo escuro, ando sem olhar para trás, chorando. Parece bobagem, mas nem indiano e muito menos mulçulmanos tem costume de tocar nenhuma mulher, nem as esposas são tocadas em público. Me senti abusada, péssima, sozinha, com muito medo e raiva.

Voltei para o hotel, chorei, tomei banho e comi o resto de granola que eu tinha levado do Brasil e que me servia de consolo para matar as saudades. Sentia muita raiva de tudo e de todos ali. E ainda tinha que brigar na agência de lá porque eles não queriam me dar a passagem de trem para Varanasi, que estava no pacote que comprei em Delhi. Mulher e sozinha, não pode fazer cara de coitatinha, tive que voltar lá umas três vezes, brigando sempre e aturando a cara deles de deboche para sair de lá com a minha passagem.

Consegui pegar minha passagem de trem, marcada para as 21hs. Ao meio dia, minha estadia expirou e tive que sair. Peguei um taxi até a estação. Cheguei lá e fui para a sala de espera das mulheres (é separado dos homens). O lugar é horrível, escuro, bem sujo, nunca vi tanto pombo na minha vida. Sento na sala, prendo minha mala grande com uma corrente ao banco e deito no banco com a cabeça nos mochilões. Sempre que preciso ir ao banheiro, levo as mochilas comigo. A pochete onde fica o passaporte, passagem e dinheiro então, não desgrudo do corpo nunca, até na hora de tomar banho penduro em um lugar que eu possa ver.

O tempo vai passando, pessoas chegam e vão embora e eu fico ali, ouvindo música, escrevendo, observando um ratinho que tenta subir pela parede e cai toda hora. O trem chega. O funcionário me coloca numa cama embaixo e eu peço para ficar na de cima para dormir melhor. (seguindo as recomendações). Tinha um motivo para ele me colocar ali, mas eu nunca iria adivinhar. Estava previsto chegar em Varanasi por volta das 9 da manhã. Acordo cedo, o trem está parando na estação. Abro a cortina e pergunto para uns indianos que se preparam para descer se já chegamos em Varanasi. Eles me olham com uma cara de assustados e falam: "Varanasi já passou, estamos em Patna". Puta merda, pensei, peguei o trem errado, era só o que me faltava!!! Desci do trem com minhas tralhas e fui me informar melhor. Na estação, sempre junta uns curiosos em volta, ainda mais sendo mulher, sozinha e com cara de perdida. Nunca é fácil pegar informação, tudo é bem confuso e normalmente tem que subir uma escadaria para resolver. Lá vou eu com meu malão, meus dois mochilões e minha mochila de ataque para o segundo andar. Nem sei como consegui subir com aquilo tudo. Acho que em situações limite, a gente fica mais bicho do que gente, não sentia fome, nem sede ou sono ou cansaço. Só queria resolver tudo e sair dali.

O segundo andar tinha 30 guichês. Em cada fila que eu entrava o funcionário me mandava para outra fila, quando não diziam simplesmente que não havia passagem para Varanasi. Resolvi me acalmar um pouco, sentei numa cadeira para aliviar um pouco o peso nas costas e fiquei pensando um pouco. Lembrei das aulas da Gloria, em que ela contou que quando você quer alguma coisa, para tentar somente três vezes, e se não der certo, reveja seus passos ou dê um tempo porque as coisas tem um tempo próprio para acontecer. Nesse momento pensei: "Eu sou devota de Shiva e quero ir para a cidade dele. Já tentei quando cheguei em Delhi e acabei em Agra que foi horrível, de Agra passei direto e vim parar quase em Calcutá. Agora é a terceira vez, se não der certo, eu vou direto para Rishkesh, nem que seja no lombo de um burro! Vou relaxar porque me aborrecer agora não vai ajudar muito". E levantei para enfrentar os guichês novamente.

Quem deveria me vender estava no número 4 com muita má vontade e me mandando para o número 27. Fui até lá e pedi ajuda porque precisava ir para Varanasi mas ninguém queria me vender a passagem. O cara no 27 foi então até o guichê 4 dar um esporro no outro cara para ele me vender a tal passagem. Ufa! Consegui!!! A hora do trem era 16hs, o relógio marcava meio dia. Mas para quem já estava no perrengue desde Delhi, esperar mais umas horas era moleza. Me dei conta de que chegaria em Varanasi as 11 da noite, tudo o que me foi alertado para NÃO fazer. Mas naquela altura do campeonato eu já tinha entregue mesmo para os Deuses.

O que mais me angustiava é não ter como me comunicar. Nenhum telefone funcionava, e eu estava há uns quatro dias sem dar notícias, na pior parte da viagem, sem poder nem desabafar com ninguém. Me certifiquei sobre qual e onde era a plataforma em que pegaria o trem. Aprendi que indiano não sabe dizer que não sabe, se você pergunta algo ele responde qualquer coisa. Por isso passei a perguntar para pelo menos cinco pessoas diferentes... uma senhora me viu nesse estado paranóico e me perguntou o que eu queria. Falei o que tinha acontecido e ela foi um amor (como a maioria dos indianos), falou para ficar com a família dela, me deu uns biscoitos e quando chegou a hora me colocou no trem certo.

No trem eu me acomodei e em cada parada eu perguntava: "Varanasi?". O cara que recolhe os bilhetes já não devia estar mais me aguentando, mas é importante ficar atento, o trem para muito rápido nas estações, as vezes nem cinco minutos, e eu estava sozinha com muita bagagem. Desci em Varanasi as 11 da noite. Outra recomendação era de não pegar rickshaw com qualquer um, muito menos com aqueles que te abordam na plataforma, dentro da estação. Eu estava há quase três dias, sem comer direito, dormindo em trens, sem tomar banho direito, não tinha nem o que pensar. O primeiro que chegou para mim e perguntou "rickshaw?"eu aceitei.

Já sabia que eles (eram dois) iriam me levar para algum hotel que dá porcentagem para eles. Falei o nome do hotel que eu queria e eles me deixaram na entrada de um beco. Peraí que eu sou doida mas não sou idiota! Falei então para eles me levarem para algum hotel que fosse barato, pois estava disposta a pagar até 200 rúpias de diária ( pouco mais de 10 reais). Me deixaram então na porta de um hotel, simples, mas simpático, sem elevador (coitado do cara que teve que carregar minhas tralhas). Todos eram simpáticos e solícitos, a cozinha já estava fechada, mas fizeram um lassi (yogurte batido com banana) para mim.

No quarto tomei banho, tomei o lassi, escrevi no diário de viagem o que tinha acontecido. No banheiro tinha um lagartão enorme que tive que vigiar enquanto tomava banho. Fui carregar as pilhas do cd player e deu um curto, faltou luz. Bom, já era hora mesmo de dormir.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Mysore

Continuando a viagem, segui de trem para Mysore. Do meu lado, sentou um cara do Tibet. Conversamos um pouco, almoçamos no trem mesmo (não nasci para ser fresca). Cheguei em Mysore por volta das duas da tarde. No trem já vi vários gringos com tapetinho de yoga nas costas. Na estação a abordagem já é "vai para o guruji? Pattabhi? Vai para a Shala?" Todos sabem que gringo está ali para praticar yoga com o Pattabhi Jois.

Me hospedei em um hotel baratinho no centro e peguei um rickshaw para conhecer a tal yoga shala (sala de yoga). Realmente, o bairro é bem diferente do resto da cidade, nem parece Índia de tanto gringo que tem e só tem casarão. Conversei com umas pessoas na porta da escola, e fui procurar algum lugar para alugar, pois pretendia ficar um mês ali praticando, precisava ficar perto porque as aulas eram bem cedo e sairia bem mais barato.

Voltei para o hotel e fui com o tibetano ver o palácio de Mysore, que aos domingos fica todo iluminado, muito lindo!!! Tirei umas fotos e voltei para o hotel. No dia seguinte o cara do aluguel me ligou, peguei minhas coisas e fui para lá. Aluguei um quarto numa escola de massagem (na qual estudei também), na rua do Pattabhi. No outro quarto ficava uma sueca chamada Sandra, ratona de Índia, quem me apresentou ainda mais esse lugar sem preconceitos ou medos.

Decidi por ter aulas com Sharat, o neto do Pattabhi. Além de bem velhinho, o Pattabhi prioriza seus alunos mais antigos e mais avançados, além de ser beeeem mais caro. O Sharat fazia mais ajustes e era mais simpático. Fui lá falar com ele e acertei o horário para o próximo dia. Alunos novos começam mais tarde, eu ainda pedi para ser um pouco mais cedo, porque estava fazendo o curso de massagem logo depois.

As aulas são na própria casa, numa sala que fica no segundo andar, sendo que as posturas invertidas e o relaxamento são feitas num outro quarto, o Sharat nem entra lá. Ficam vários tapetinhos, um colado no outro, você chega, senta espremida num canto e espera alguém terminar (ir para o outro quarto terminar a série) para começar sua prática.

No primeiro dia ele observa como estão as posturas, se a pessoa passar de marichyasana D, ele deixa completar a série, mas se percebe que você já está cansado chega perto e diz "por hoje chega, vai para lá descansar". Eu fiz tudo e fiquei feliz com isso. Acabava a série e mal relaxava já tinha que sair correndo para a aula de massagem, chegava um pouco atrasada, mas meu professor lá também entendeu minha situação.

E assim foi por um mês. Acordava, ia praticar, voltava correndo. Minha companheira de casa sempre deixava algo preparado para eu comer enquanto assistíamos as aulas de massagem. Depois da aula, tomava um banho, íamos almoçar e a tarde batíamos perna pela cidade. Era a sexta vez que a Sandra estava na Índia, ela trabalhava seis meses na Europa e ficava outros seis na Índia. Logo no primeiro dia em que ela me preparou uma salada de fruta com yogurte eu começei a comer e vi que tinha maças com casca e uvas. Perguntei se não havia problema, porque esse era mais um terror em relação à Índia, (" nunca coma frutas com casca!!!"). Ela fez uma cara de quem nunca tinha ouvido isso e falou: "eu sempre como". Daí eu começei a comer também. Se ela que nasceu na Suécia não tinha frescura, eu que nasci no Rio de Janeiro e na infância mergulhei (me imunizei rsrs) na praia no Flamengo é que não ia ter!!!

A partir de então eu comi em vários "botecos", em alguns a comida valia o equivalente a 1 real (mas nesse os guardanapos eram uns pedaços de jornal...rsrs), andava pela cidade toda com ela procurando tecido (ela estava começando uma confecção e fazia umas roupas lindas!). Na maior parte do tempo eram eu, Sandra e Jenny, da Finlândia. Tomávamos café da manhã alguns dias na Tina, visitamos o templo de Chamundi Hill, fomos a uma feira orgânica que tinha por lá., onde descobri o sapoti e me apaixonei de cara! Escutávamos música a noite de papo furado.

O primeiro curso de massagem durou 15 dias, nos outros 15 eu fiz um curso de thai massagem e algumas aulas de culinária. Além da Sandra, fiz muitos amigos em Mysore, tinha gente do mundo inteiro. Finlândia, Espanha, Italia, Chile, Japão...foi muito bom! Visitei o lugar onde Krisnamacarya (mestre do Pattabhi) deu aulas, assisti apresentações de dança, de música, consegui encontrar o tal lugar que tem o melhor lassi (yogurte batido com frutas) de toda a Índia, até em uma festa de casamento eu fui. E fui abraçada pela Amma também!!!

Mas o tempo de ficar em Mysore já estava acabando e eu já começava a planejar o próximo passo: Varanasi!!!

Chegando, pela primeira vez


Fui a primeira vez em 2005. A mulher da agência de viagens disse que eu não aguentaria nem um mês sozinha, ainda mais indo pela primeira vez. Conversei com muitas pessoas que estiveram por lá, morando, estudando e muitas também me disseram que não iriam sozinhas. Mas eu fui. E adiei por duas vezes a volta para o Rio.

A única coisa que pedi para a agência foi um carro me esperando em Bangalore para me levar para Puttaparty, no ashram do Sai Baba. Eu chegaria de madrugada em Mumbai e faria uma conexão para Bangalore, chegando umas 3 da manhã. Só queria ler uma plaquinha com meu nome na chegada, o resto dos 3 meses eu me viraria. Mas ao sair no corredor polonês que se forma na saída do aeroporto (só quem viaja tem o direito de entrar), procurei no meio da multidão o meu nome, eu e meus mochilões, olhei de um lado, de outro, e nada. Isso tudo com a gritaria de gente oferencendo serviço, transporte.

Ainda tonta e um pouco assustada me enfiei numa cabine telefonica e liguei para o Brasil, para a tal da agência e falei: "e aí, tô aqui e não tem ninguém me esperando! Pô, foi a única coisa que eu te pedi!". Foi mais um desabafo, porque sabia que ela pouco podia fazer do outro lado do mundo. Saí da cabine, olhei para dentro do aeroporto pensando em talvez entrar e ficar até o dia amanhecer.

Nisso voltam a me abordar dois homens que já haviam me oferecido um taxi. Eles falam rápido e eu entendo pouco (leva um tempo para se acostumar com sotaque indiano). Até que um deles começou a falar que era profissional, que tinha cadastro e me mostrou sua carteira de taxista. Eu peguei, olhei e a única coisa que me lembro era de uma data de expedição: a do meu aniversário. Decidi ir com ele. Parece loucura, mas na hora foi isso que me convenceu: o dia e mês em que eu nasci na carteira dele.

Com toda a paranóia de quem mora no Rio de Janeiro, entrei com muito medo no carro. Tudo escuro em volta. O motorista era gentil, me ofereceu um travesseiro para se eu quisesse dormir, porque a viagem era de aproximadamente 3 horas. Eu estava um caco, mas nunca arregalei tanto os olhos e disse que não precisava. Por algumas vezes ele também parou na estrada e me ofereceu tchai (chá preto com leite), eu também não quis. Fiquei rezando, pensando que ele poderia sumir comigo e talvez ninguém nunca mais me visse. Já eram por volta das quatro e meia da manhã e essa agonia foi até umas seis horas, quando começou a clarear e eu consegui ver uma placa escrito puttaparty. Ele estava me levando para o ashram. Acho que nunca uma hora e meia demorou tanto para passar.

Cheguei lá, me hospedei no ashram. Não era devota e mal sabia a respeito do Sai Baba, mas quis ver de perto quem era essa pessoa que tinha tantos poderes e mobilizava tanta gente na Índia e no mundo. Fiquei num quarto com mais umas oito mulheres, a maioria russas que mal falavam inglês e uma do Canadá. Os primeiros dias são estranhos, com tal do jet leg. Não tinha sono nem fome, o que me fazia acordar de madrugada e ir para a fila ver o Sai Baba. Depois do darshan (visão), eu ia para uma clínica ayurvédica fazer massagem e andava pela cidade.

Nem precisava saber língua nenhuma lá, porque tudo é "Sai Ram". Não é exagero! Tudo!!! "Dá lincença, me desculpa, tire os sapatos, não pode, sim, não, talvez, comida, bom dia, boa noite..." O que quer que você queira, todos lá só falam "Sai Ram". Chega a ser engraçado. Tudo é uma questão de contexto...rsrsrs

Bom, já no segundo dia eu começei a desmontar o mito que faziam da Índia. A própria agenciadora me alertou bastante contra "os perigos" da Índia. Quase me ameaçou para que eu não comesse em nenhum lugar fora do ashram, só no restaurante para estrageiros. O que eu fiz? Segui pela rua fora do ashram e entrei no primeiro restaurante que achei simpático. A comida era ótima!!! E muito barata também. Já estava me sentindo em casa...

No terceiro dia eu já estava legal de Sai Baba e queria continuar viajando. Falei com algumas pessoas, queria ir para Tiruvanamalai antes de Mysore. Sondei os meios de transporte, pensei, pensei...e de repente no meio da noite eu acordo (ainda no jet leg) e resolvo ir embora. As duas e meia da manhã, saio eu com um mochilão nas costas e outro na frente, andando pelo ashram deserto. Vou até a mini rodoviária e entro no primeiro ônibus que vejo para Bangalore.

O ônibus não era de viagem, tive que sentar com uma mochila nos pés e outra no colo. Só tinha indiano e nenhum falava nada de inglês. O ônibus foi parando de vila em vila, até chegar a Bangalore, por volta de 1o da manhã (demorou mais do que o dobro do tempo de um carro normal). Desci perto da estação de trem, comprei minha passagem e fui para Mysore finalmente. Tiruvanamalai teve que ficar para outra.

Pronto. Já tinha comido na rua, pechinchado, pegado carro, ônibus comum e estava no trem. Estava completamente em casa. Vou terminar por aqui. Cada post uma história se não ninguém aguenta.